A Morte Não Deveria Parecer Tão Comum
Eu me lembro do bip do monitor cardíaco, das paredes brancas e estéreis do quarto de hospital e da pressão das mãos da minha filha envolvendo as minhas.
Lembro da estranha sensação de leveza, do silêncio assustador, da percepção repentina de que meu corpo já não estava mais no comando.
Eu estava flutuando.
Uma Segunda Chance e uma Constatação Assustadora
Eles chamam isso de experiência de quase morte. Eu chamo de segunda chance.
Porque, enquanto eu pairava em algum lugar entre aqui e seja lá onde for “lá”, um único pensamento me atingiu como um raio: eu não deixei nada para trás.
Nenhuma carta. Nenhuma história gravada. Nenhum guia para meus netos saberem quem eu realmente fui.
Apenas uma pilha de álbuns de fotos antigos, alguns objetos de lembrança e uma vida inteira de memórias não escritas. Esse pensamento me assustou mais do que a própria morte.
Um Novo Começo
Então, quando eu voltei – porque eu voltei, sim – tomei uma decisão. Eu colocaria tudo no papel. E não só por mim, mas por eles.
Memowrite foi ideia da Emília.
“Mãe”, ela disse, colocando o notebook na minha frente, “você sempre diz que não é escritora, mas isso é só desculpa. Se você consegue contar uma história, consegue escrever uma história.”
Revirei os olhos, mas cliquei no link mesmo assim. Eu ainda não estava convencida. Mas então vi uma das perguntas: Qual foi um momento da sua vida que mudou tudo?
Ah, para essa eu tinha resposta.
E, de repente, foi como se as comportas se abrissem.
Dando Vida ao Livro
Uma das partes mais emocionantes de todo o processo foi escolher as fotos.
Vasculhei álbuns antigos, rindo dos penteados e admirada com o quanto todos nós já fomos jovens um dia.
Uma foto do dia do meu casamento, um registro espontâneo dos meus filhos brincando no quintal, um momento querido do meu falecido marido olhando para mim com aquele brilho conhecido nos olhos.
Essas imagens não eram apenas fotos; eram pedaços do meu coração, congelados no tempo.
Quando a versão final chegou, hesitei antes de abrir.
E se não estivesse bom o suficiente? E se minhas palavras não tivessem conseguido transmitir o que eu sentia?
Mas, ao virar as páginas, vi minha vida diante de mim – não perfeita, mas verdadeira. E isso bastava.

Destravando Memórias, Uma História de Cada Vez
Escrevi sobre minha infância – dias pegajosos de verão correndo descalça pelo pomar do meu avô, com o cheiro de pêssegos maduros no ar.
Escrevi sobre meus loucos vinte e poucos anos, aqueles dos quais nunca falei para meus filhos, quando eu dançava até o nascer do sol e amava sem medo.
Escrevi sobre meu marido, sobre como ele colocava uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha quando achava que ninguém estava olhando.
E também escrevi sobre o que doeu – os arrependimentos, as perdas, as noites em que fiquei acordada me perguntando se eu tinha feito o suficiente.
Memowrite tornou tudo mais fácil.
As perguntas me conduziam adiante, me ajudando a não ficar presa nos meus próprios pensamentos.
Quando a cópia final chegou, segurei em minhas mãos como se fosse um recém-nascido – algo precioso, frágil, algo que sobreviveria a mim.
Na primeira vez em que minha neta folheou as páginas, ela levantou os olhos para mim, arregalados. “Vó”, ela disse, “eu nunca soube que você era tão incrível assim.”
Eu ri, baguncei o cabelo dela e disse, “Sou cheia de surpresas, minha querida.”
Este livro é a minha prova de que eu estive aqui. De que eu vivi. De que eu importei.
E quando o meu momento finalmente chegar – quando eu não tiver outra segunda chance – minhas histórias não vão desaparecer. Elas estarão aqui, esperando, prontas para sussurrar para as pessoas que eu amo.
Memowrite me deu esse presente. E, por isso, serei eternamente grata.







